“Vi o dispersar da luz de uma aurora vazia. Sim, era escuro como não deveria ser, mas com os sussurros do vento que supriam a vontade de qualquer um de se perder. E esse som ecoava empurrando uma tênue bruma pra lá e pra cá…
Eu queria ver com meus próprios olhos, mas talvez não tivesse menos chances de agarrar qualquer momento como eu pego um arfar. As memórias vão, apenas vão, voltando esporadicamente para me torturar sobre erros.
E a perdição cai sem demora, envolvendo meus olhos naquelas luzes de um deserto sem precedentes. Luzes vazias, sem por que, nem vida, sem morte…
Aperto minhas mãos no intuito de afastar o frio; encolho meu eu sem que o calor venha. Minhas armas ao meu lado jazem como lápides de alguém que sente o gosto da morte nos próprios lábios. Solto mais um arfar deixando as memórias irem embora de novo.
Quão distante eu estaria de dar um passo em direção ao nada, eu não sei, nem quero saber, muito menos andar. A falta da vontade de seguir um rumo parece me perseguir agora. Tudo vem como uma tempestade: os raios, a dor, o trovão e o grito.
Não há sinfonia nas batidas do meu coração, nem desejos maiores que me façam crescer. Se uma sombra pousasse ao meu lado, ela falaria comigo? E seus olhos seriam como os meus? Eu realmente acho que sim… Ainda que reflexos de meu eu só mostrem alguém para quem crescer não mais basta.
A aurora se delicia com uma dança incomum… Seus traços secos almejam a solidão de uma terra já desolada.
Aurora vazia. Som de lugar nenhum. Dor de ser eu mesmo…”