Prólogo… (PARTE 2)

(…)

Meu nome é Hyperion…

Aquele ser havia parado na minha frente e anunciado minha suposta, ou o início da minha queda. Era um titã.

Eu sorri, deixando que aquele respiro negro tomasse conta de mim. Minha pale se ouriçou, enquanto um calo seguiu por dentro de mim, deixando que minha garganta sibilasse inconscientemente.

O ser negro deu mais um passo, pondo sua mão contra o chão, contra aquele mar raso em volta de nós dois. Pude ver sua exaltação. Seus olhos miraram minha espada. Eu recuei, quebrando meu próprio silêncio.

Recuei violentamente, deixando aquele mar ditar meus rastros. Escorregava, quando cravei minha espada no chão, retardando meu movimento e esperando aquela massa que trazia consigo um turbilhão e uma onda imensa alcançar-me.

Levantei minhas mãos, defendendo com minha espada quando aquele titã me socou, fazendo meus joelhos tremerem e meus dentes rangerem. Desviei-me para a direita, quando um soco vindo da minha esquerda passara alavancando outra explosão em meio a água. Girei para frente ao cravar minha lâmina no solo, pudendo alcançar automaticamente a cabeça daquele ser. Minha espada se chocou um de seus chifres e fui rechaçado.

Recuperei meus passos rapidamente, dispondo de minha rapidez para saber e para deixar que meus olhos guiassem o caminho, sozinhos. Minha vontade exercera um grito seco tremulando e ouriçando as águas ao meu redor.

O titã veio, com seus punhos violentos rasgando aquelas águas com a maior euforia que podia. Tentou um golpe direto e eu desviei girando para o lado; ele girou seu corpo e eu desviei por baixo de seu golpe, mas avançou e desceu com sua mão, abreviando seu movimento. Escorreguei por baixo de seu punho, levantando-me justamente a tempo de erguer minha espada e cravá-la em seu punho esquerdo. Deixei-me ser levado, girei minha lâmina e meu corpo com a insanidade que podia, arranquei-lhe aquela parte de seu membro, deixando o sangue espirrarsobre aquelas águas. Em contraponto fui atingido por sua outra mão, sendo atirado para longe.

Cai no chão com dor em meu peito, rapidamente, impulsionei-me com meus braços assim que adquiri a posição certa e retomei minha postura. Minha lâmina, insólita, emitiu o brilho do sangue daquele ser. Seu cabo, grande o suficiente para que eu pudesse usá-la com as duas mãos, gotejou o máximo daquela água doce aos meus pés. Seu fio de lado único gotejou daquele líquido escarlate. Após o cabo, a defesa daquela arma tinha a forma de losango. Minha espada só continha dois terços de seu tamanho, mas ainda era minha e perfeita. Eu a arquejei expurgando o sangue de sua lâmina.

O titã apontou-me seus chifres, concentrando o que eu imaginaria ser água e pura energia. Mirou e atirou repetidas vezes. Cada um daqueles disparos explodiu ao meu redor. Corri, desviando o mais rápido que pude: uma vez pela esquerda, direita e direita novamente. Trazia um vácuo involuntário e resquícios de uma vontade incontrolável. Brandi e atirei minha espada contra o titã, acertando seu peito e fazendo-o cambalear com um grunhido desesperado. Pulei em direção ao seu peito.

O titã gritou. Seus movimentos rápidos seguraram minha espada, obrigando-me a retirá-la de seu peito e brandindo a mão direita – livre – desferi um ataque explodindo parte de seu rosto.

Caí em pé após fazer aquele ser recuar vários passos. Girei minha espada jogando-a para frente, girando a mim mesmo e agarrando-a em pleno ar com a mão oposta. Arquejei meus passos e dilacerei a mão direita daquele ser. Ouvi seus últimos gritos e me deixei diminuir de ritmo até nada mais que minha respiração ser a coisa alterada em mim. Ele caiu.

Subi no peito daquele ser ouvindo seus gemidos que pareciam risos. Vi seus olhos cínicos me olhando como se eu estivesse errado. Não houve súplica. Pisei em seu peito esmagando-o até sentir seus ossos estalando sobre meus pés. A água ao meu redor vibrava e a terra abaixo de nós tremeu quando eu o fizera. Senti o sangue invadir e tomar conta daquelas águas, quando o barulho daquele violento pisar tornou-se mais audível.

Desci daquela carcaça e continuei a andar sentindo, porém, meu corpo um tanto dolorido.

Andei, jogando água em meu rosto com minha mão esquerda, lavando o rápido suor que havia se formado em minha face. Brandi minha espada deixando que pequenos pedaços dela fossem retomados. Uma gota de meu sangue caiu de minha boca. Girei a lâmina em meus dedos, guardando-a suavemente em sua bainha, como havia aprendido com meus irmãos.

Apontei com meus olhos a alvorada que ficara um pouco mais escura. “Quando?”. Não me lembro. Continuei a andar a procura de um de meus irmãos. Teimando em achar que meu caminho seria fácil e não haveria com o que se preocupar.

Sim, eu era tolo. Sou tolo. No início, eu nunca pensava no pior.

Eu havia recebido um convite e havia aceitado.

Tenho que alcançar meu Pai.

Prólogo… (PARTE 1)

Eu não sabia que olhar pro céu me trazia tal nostalgia. Estava naquele momento em total desatenção ao mundo, deixando a mim mesmo ditar as regras. Minhas vontades falavam mais alto enquanto cada pequena estrela dizia um pouco mais de si. Não eram amigas porque eu queria, mas escolhi quais se aproximariam e quais seriam alvos de meus olhos. Naquela noite que se transformava em dia e caia como um prelúdio para algo novo, aquela escuridão do céu parecia acolhedora e extremamente familiar. O frio podia estar ali, mas eu talvez não ligasse muito. É claro que tudo o que tinha em mãos eram poucas palavras, resquícios de uma espada quebrada, cuja lâmina teimava em não se esmaecer com o soprar de uma brisa oportunista. Seu brilho me lembrou o próprio brilho dos meus olhos. Algo de que eu não sentia vergonha, mas sim um orgulho cego.Olhei para o meu lado vendo a solidão da desolação me alcançar. Nada mais faria nenhum sentido.

Eu abandonara os domínios diretos de meus irmãos, indo em direção ao meu Pai, além da fronteira onde a luz não mais parece uma galáxia a querer iluminar e queimar qualquer um que se aproxime. Ele estava lá.

Eu, um prodígio negro, em nada tinha mais orgulho do que ser um filho. Mas a cor da minha alma, a mesma cor da minha pele, a mesma cor da minha regência ou profundeza dos olhos, teimava em me fazer querer abandonar esse orgulho.

Não nasci com um nome, mas recebi um de meu irmão: Hyperion.

…Por olhar para o ponto mais alto assim que abrir os olhos; por querer estar nele.

Eu estava no primeiro dos três mundos divisórios. Centuria. A minha volta, ruínas e mais ruínas de um local onde um sorriso era valioso como uma chama em meio à vida no frio. Naquele lugar, onde uma boa parte do mar não passava de meus joelhos, o céu sempre continha pelo menos uma daquelas lanças laranja cortando o céu num impetuoso alvorecer.

Andava pelo maior daqueles mares. Em busca de meu “irmão” e de sua permissão para passar por aquele mundo.  Meus passos, trazendo o barulho da água, tiravam o silêncio dali; mas meus lábios, tentavam fazê-lo permanecer. Estava naquele quase eterno amanhecer. Belo, suave, mas longínquo.

Eu trajava roupas negras, uma camisa com mangas até meus cotovelos, uma calça com únicas partes de tecidos na cor branca por cima de meus bolsos laterais, um cinto onde a bainha de minha espada prendia-se horizontalmente na parte de trás de meu quadril, um cordão com o símbolo de minhas espadas negras: um pequeno olho vermelho. Uma luva que cobria todo o meu antebraço esquerdo, mãos, mas não dedos, com um desenho de uma um sol queimando como uma cruz na cor prateada. E junto com aquele cordão, óculos que usava para ocultar o brilho intenso e soturno de meus olhos, com grandes lentes, pendurados em meu pescoço.

Não sabia quantas horas tinham se passado durante minha caminhada, nem se queria contá-las. Havia saciado minha fome ao sair de meu mundo, buscando um sabor a mais para provar. Se tinha sede bebia da água estranhamente doce daquele mar.

Minha pele negra reluzia contra a luz daquele amanhecer. Meu orgulho permanecia e nunca fora tão evidente no meio sorriso que eu mostrava em meus lábios.

Meus olhos na cor daquele infinito em que nasci, negros, tinham aquela centelha de uma cor que eu desconhecia, mas achava ser a cor de sangue, a cor de avelã, algo entre a cor da minha pele.

Lembranças de mim quando criança, nascendo com aquele sorriso que trazia a malícia e a “vontade” incrustadas no meu ser,  e de mim ajoelhando-me perante o meu Pai e sobre seus olhos, vieram trazidas por aquela brisa sussurrante e oportunista. Um juramente que não cumpri, um arrependimento de não saber que preceitos seguir… Uma criança tola com sonhos maiores do que a si mesma.

O reflexo da alvorada naquele mar tremulou quando outros passos se impuseram sobre a água. Vi um daqueles seres gigantescos dos quais meus irmãos falavam sempre. Um titã. Ele tinha a cor esverdeada, como se estivesse deixando vida nascer na própria pele. Olhou-me com olhos profundamente amarelos, um tanto da mesma cor daquela espécie de musgo e pêlos que tinha sobre si. Manteve o olhar até eu me aproximar.

Aquele titã tinha chifres curvos, laterais que apontavam para frente assim que alcançavam suas mandíbulas. Uma espécie de coroa feita por ossos salientados de seu crânio. Um tamanho que calculei entre 3 metros ou mais um pouco. Braços fortes, dispostos como apoios para seu tórax largo. Suas pernas, longas, se aprumaram junto a sua postura assim que cheguei ainda mais perto.

Olhamos-nos enquanto apenas continuei a andar, seguindo em direção a alvorada. Ele retesou os músculos, e submergiu parte de sua mandíbula. Bebeu água sonoramente. Detive-me a não mostrar interesse. Uma presença como aquela não era de nada uma alegria para meus olhos.

Ele olhou para minha lâmina, cuja ponta estava quebrada. Não sorriu, mas pensei por um minuto que sua expressão indicasse que sim.

— Quem és tu, garoto? — Perguntara aquele ser. E sem pressa para responder olhei-lhe com meus lábios proferindo meu nome, alertando-o, provocando-o.

— Hyperion.

Ele, inconscientemente, andou junto a mim. Praticamente sem tirar os olhos de mim enquanto isso.

— O que você procura? — Perguntou ele mais uma vez.

— Meu irmão: Leviathan, dos “Olhos de Oceano”.

— Nada mais esperto que procurar companhia nesse “deserto de águas”, não?

Sorri para mim mesmo, talvez para ele. “Deserto de Águas”, sim, este era o nome mais adequada para este lugar. Andamos longos metros, com aquele ser começando a sentir o cheiro que eu teimava em ter.

— Você ressoa a trevas… — Disse ele. — Não é daqui, estou certo?

— Pode se dizer que sim.

— O que faz tão afastado de seu Pai?

— Eu me exilei para buscar minhas vontades.

Mais silêncio. “Sinceridade”, dissera aquele ser no primeiro sorriso verdadeiro que dera a mim. Sua respiração pesada enchia o ar com gotículas de água. Sua pele se encharcava.

— O que lhe traz a esta terra? — Perguntei apertando o cabo de minha espada.

— O cheiro de trevas…

Parei e o olhei diretamente pela primeira vez em nossa caminhada, e com mais alguns passos, ele parara também. Pude sentir a pele dele ressoando em vontade. Meus olhos brilharam mais do que eu desejei. Apertei minha espada e a apontei para o ser ainda minha frente.

“Quebrada”… Eu dissera, mas no fim, minha ela estava “incompleta”.

Uma brisa tremulou entre nós.

— Quantos de vocês estão aqui? O que querem?

— Você… — Disse ele com mais aquele sutil e vigoroso passo na minha direção. — Nós queremos que seu sangue seja nossa premissa para a vitória. Você cairá…

Meus olhos vislumbraram o além mar, que se tornava um oceano. Eu sorri…

(…)

Aurora Vazia…

“Vi o dispersar da luz de uma aurora vazia. Sim, era escuro como não deveria ser, mas com os sussurros do vento que supriam a vontade de qualquer um de se perder. E esse som ecoava empurrando uma tênue bruma pra lá e pra cá…

Eu queria ver com meus próprios olhos, mas talvez não tivesse menos chances de agarrar qualquer momento como eu pego um arfar. As memórias vão, apenas vão, voltando esporadicamente para me torturar sobre erros.

E a perdição cai sem demora, envolvendo meus olhos naquelas luzes de um deserto sem precedentes. Luzes vazias, sem por que, nem vida, sem morte…

Aperto minhas mãos no intuito de afastar o frio; encolho meu eu sem que o calor venha. Minhas armas ao meu lado jazem como lápides de alguém que sente o gosto da morte nos próprios lábios. Solto mais um arfar deixando as memórias irem embora de novo.

Quão distante eu estaria de dar um passo em direção ao nada, eu não sei, nem quero saber, muito menos andar. A falta da vontade de seguir um rumo parece me perseguir agora. Tudo vem como uma tempestade: os raios, a dor, o trovão e o grito.

Não há sinfonia nas batidas do meu coração, nem desejos maiores que me façam crescer. Se uma sombra pousasse ao meu lado, ela falaria comigo? E seus olhos seriam como os meus? Eu realmente acho que sim… Ainda que reflexos de meu eu só mostrem alguém para quem crescer não mais basta.

A aurora se delicia com uma dança incomum… Seus traços secos almejam a solidão de uma terra já desolada.

Aurora vazia. Som de lugar nenhum. Dor de ser eu mesmo…”